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A mostrar mensagens de Novembro, 2014

O GUARDADOR DE REBANHOS - XXV

XXV As bolas de sabão que esta criança Se entretém a largar de uma palhinha São translucidamente uma filosofia toda. Claras, inúteis e passageiras como a Natureza, Amigas dos olhos como as cousas, São aquilo que são Com uma precisão redondinha e aérea, E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa, Pretende que elas são mais do que parecem ser. Algumas mal se vêem no ar lúcido. São como a brisa que passa e mal toca nas flores E que só sabemos que passa Porque qualquer cousa se aligeira em nós E aceita tudo mais nitidamente.                                  Fernando Pessoa - 13-03-1914

O GUARDADOR DE REBANHOS - XXIV

XXIV O que nós vemos das cousas são as cousas. Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra? Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos Se ver e ouvir são ver e ouvir ? O essencial é saber ver, Saber ver sem estar a pensar, Saber ver quando se vê, E nem pensar quando se vê Nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), Isso exige um estudo profundo, Uma aprendizagem de desaprender E uma sequestração na liberdade daquele convento De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas E as flores as penitentes convictas de um só dia, Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas Nem as flores senão flores, Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.                                                   Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XXIII

XXIII
O meu olhar azul como o céu É calmo como a água ao sol. É assim, azul e calmo, Porque não interroga nem se espanta... Se eu interrogasse e me espantasse Não nasciam flores novas nos prados Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo. (Mesmo se nascessem flores novas no prado E se o sol mudasse para mais belo, Eu sentiria menos flores no prado E achava mais feio o sol... Porque tudo é como é e assim é que é, E eu aceito, e nem agradeço. Para não parecer que penso nisso...)                             Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XXII

XXII Como quem num dia de Verão abre a porta de casa E espreita para o calor dos campos com a cara toda, Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa Na cara dos meus sentidos, E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber Não sei bem como nem o quê... Mas quem me mandou a mim querer perceber? Quem me disse que havia que perceber? Quando o Verão me passa pela cara A mão leve e quente da sua brisa, Só tenho que sentir agrado porque é brisa Ou que sentir desagrado porque é quente, E de qualquer maneira que eu o sinta, Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...                                       Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XXI

XXI
Se eu pudesse trincar a terra toda E sentir-lhe um paladar, Seria mais feliz um momento... Mas eu nem sempre quero ser feliz. É preciso ser de vez em quando infeliz Para se poder ser natural... Nem tudo é dias de sol, E a chuva, quando falta muito, pede-se. Por isso tomo a infelicidade com a felicidade Naturalmente, como quem não estranha Que haja montanhas e planícies E que haja rochedos e erva... O que é preciso é ser-se natural e calmo Na felicidade ou na infelicidade, Sentir como quem olha, Pensar como quem anda, E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, E que o poente é belo e é bela a noite que fica... Assim é e assim seja...                                                Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XX

XX O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. O Tejo tem grandes navios E navega nele ainda, Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, A memória das naus. O Tejo desce de Espanha E o Tejo entra no mar em Portugal. Toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia E para onde ele vai E donde ele vem. E por isso, porque pertence a menos gente, É mais livre e maior o rio da minha aldeia. Pelo Tejo vai-se para o Mundo. Para além do Tejo há a América E a fortuna daqueles que a encontram. Ninguém nunca pensou no que há para além Do rio da minha aldeia. O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele está só ao pé dele.                                                   Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XIX

XIX O luar quando bate na relva Não sei que cousa me lembra... Lembra-me a voz da criada velha Contando-me contos de fadas. E de como Nossa Senhora vestida de mendiga Andava à noite nas estradas Socorrendo as crianças maltratadas... Se eu já não posso crer que isso é verdade, Para que bate o luar na relva?                                 Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XVIII

XVIII Quem me dera que eu fosse o pó da estrada E que os pés dos pobres me estivessem pisando... Quem me dera que eu fosse os rios que correm E que as lavadeiras estivessem à minha beira... Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio E tivesse só o céu por cima e a água por baixo... Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro E que ele me batesse e me estimasse... Antes isso que ser o que atravessa a vida Olhando para trás de si e tendo pena...                                         Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XVII

XVII
No meu prato que mistura de Natureza! As minhas irmãs as plantas, As companheiras das fontes, as santas A quem ninguém reza... E cortam-as e vêm à nossa mesa E nos hotéis os hóspedes ruidosos, Que chegam com correias tendo mantas Pedem «Salada», descuidosos..., Sem pensar que exigem à Terra-Mãe A sua frescura e os seus filhos primeiros, As primeiras verdes palavras que ela tem, As primeiras cousas vivas e irisantes Que Noé viu Quando as águas desceram e o cimo dos montes Verde e alagado surgiu E no ar por onde a pomba apareceu O arco-íris se esbateu...                              Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XVI

XVI
Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada, E que para de onde veio volta depois Quase à noitinha pela mesma estrada. Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas... A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco... Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.                                                       Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XV

XV As quatro canções que seguem Separam-se de tudo o que eu penso, Mentem a tudo o que eu sinto, São do contrário do que eu sou... Escrevi-as estando doente E por isso elas são naturais E concordam com aquilo que sinto, Concordam com aquilo com que não concordam... Estando doente devo pensar o contrário Do que penso quando estou são. (Senão não estaria doente) Devo sentir o contrário do que sinto Quando sou eu na saúde, Devo mentir à minha natureza De criatura que sente de certa maneira... Devo ser todo doente – ideias e tudo. Quando estou doente, não estou doente para outra cousa. Por isso essas canções que me renegam Não são capazes de me renegar E são a paisagem da minha alma de noite, A mesma ao contrário...
                                               Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XIV

XIV
Não me importo com as rimas. Raras vezes Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra, Penso e escrevo como as flores têm cor Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me Porque me falta a simplicidade divina De ser todo só o meu exterior. Olho e comovo-me, Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado, E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...                                                         Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XIII

XIII
Leve, leve, muito leve, Um vento muito leve passa, E vai-se, sempre muito leve. E eu não sei o que penso Nem procuro sabê-lo.               Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XII

XII
Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras cousas E cantavam de amor literariamente. (Depois – eu nunca li Virgílio. Para que o havia eu de ler?) Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio, E a Natureza é bela e antiga.
                                             Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XI

XI
Aquela senhora tem um piano Que é agradável mas não é o correr dos rios Nem o murmúrio que as árvores fazem... Para que é preciso ter um piano? O melhor é ter ouvidos E amar a Natureza.                               Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - X

X «Olá, guardador de rebanhos, Aí à beira da estrada, Que te diz o vento que passa?» «Que é, vento, e que passa, E que já passou antes, E que passará depois. E a ti o que te diz?» «Muita cousa mais do que isso. Fala-me de muitas outras cousas. De memórias e de saudades E de cousas que nunca foram.» «Nunca ouviste passar o vento. O vento só fala do vento. O que lhe ouviste foi mentira, E a mentira está em ti.»                                  Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - IX

IX
Sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca. Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido. Por isso quando num dia de calor Me sinto triste de gozá-lo tanto, E me deito ao comprido na erva, E fecho os olhos quentes, Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, Sei a verdade e sou feliz.

                                        Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - VIII

Pressione o link para ouvir o Poema VIII dito por Paulo Autran Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
 E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era …

O GUARDADOR DE REBANHOS - VII

VII Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura... Nas cidades a vida é mais pequena Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu, Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar, E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.                                                                       Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - VI

VI
Pensar em Deus é desobedecer a Deus, Porque Deus quis que o não conhecêssemos, Por isso se nos não mostrou... Sejamos simples e calmos, Como os regatos e as árvores, E Deus amar-nos-á fazendo de nós Belos como as árvores e os regatos, E dar-nos-á verdor na sua primavera, E um rio aonde ir ter quando acabemos!...                                     Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - V

V Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso. Que ideia tenho eu das cousas? Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma E sobre a criação do Mundo? Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos E não pensar. É correr as cortinas Da minha janela (mas ela não tem cortinas). O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério. Quem está ao sol e fecha os olhos, Começa a não saber o que é o sol E a pensar muitas cousas cheias de calor. Mas abre os olhos e vê o sol, E já não pode pensar em nada, Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos De todos os filósofos e de todos os poetas. A luz do sol não sabe o que faz E por isso não erra e é comum e boa. Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? A de serem verdes e copadas e de terem ramos E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, A nós, que …

O GUARDADOR DE REBANHOS - IV

Esta tarde a trovoada caiu Pelas encostas do céu abaixo Como um pedregulho enorme... Como alguém que duma janela alta Sacode uma toalha de mesa, E as migalhas, por caírem todas juntas, Fazem algum barulho ao cair, A chuva chovia do céu E enegreceu os caminhos... Quando os relâmpagos sacudiam o ar E abanavam o espaço Como uma grande cabeça que diz que não, Não sei porquê – eu não tinha medo – Pus-me a rezar a Santa Bárbara Como se eu fosse a velha tia de alguém... Ah! é que rezando a Santa Bárbara Eu sentia-me ainda mais simples Do que julgo que sou... Sentia-me familiar e caseiro E tendo passado a vida Tranquilamente, como o muro do quintal; Tendo ideias e sentimentos por os ter Como uma flor tem perfume e cor... Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara... Ah, poder crer em Santa Bárbara! (Quem crê que há Santa Bárbara, Julgará que ela é gente e visível Ou que julgará dela?) (Que artifício! Que sabem As flores, as árvores, os rebanhos, De Santa Bárbara?... Um ramo de ár…