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A mostrar mensagens de Junho, 2013

RITUAL DA CHUVA

RITUAL DA CHUVA, de Herberto Helder, dito por Mário Viegas Desde os tempos antigos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Da montanha de Água,
de seus cumes altíssimos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.

Entre a luz dos relâmpagos,
relâmpagos que brilham,
fulmíneos relâmpagos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.

Entre as andorinhas,
andorinhas azuis,
que gritam, que gritam,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.

Atravessando o pólen,
o pólen sagrado,
vestida de pólen,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.

Desde os tempos antigos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.          Herberto Helder

CANÇÃO

Canção, de Eugénio de Andrade, dito por Eunice Munoz Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Dei o cravo e dei o lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir
- mãe, dou-lho ou não? Eugénio de Andrade

O TEMPO

O TEMPO, de Mário Quintana, dito por António Abujamara
A vida são deveres, que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas...
Quando se vê, já é sexta-feira
Quando se vê, já é Natal ....
Quando se vê, já terminou o ano .
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida .
Quando se vê, passaram-se 50 anos !
Agora, é tarde demais para ser reprovado ...
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho,
a casca dourada e inútil das horas ...
Eu seguraria todos os meus amigos, que Já não sei como e onde eles estão e diria: vocês são extremamente importantes para mim.
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
Dessa forma eu digo, não deixe de fazer algo que gosta devido a falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará. Mário Quintana

ESPERANÇA

ESPERANÇA, de MÁRIO QUINTANA dito por José Maria Alves Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Mário Quintana
"Nova Antologia Poética", Editora Globo Tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".

UMA PEQUENINA LUZ

UMA PEQUENINA LUZ, de Jorge de Sena, dito por Tânia Pinto UMA PEQUENINA LUZ, de Jorge de Sena, dito por Susana Neves UMA PEQUENINA LUZ, de Jorge de Sena, dito por Paulo Campos dos Reis UMA PEQUENINA LUZ, de Jorge de Sena, dito por Catarina Guerreiro Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exata
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exatidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de …

ATÉ SEMPRE

Perdeste a lágrima, menino? Quem afligiu a tua bola? Pega lá a vida, faz o pino! Sempre o contrário nos consola.

A vida é bela, rasga a vida! Que em mim já antes papel é. Vê como a levo de vencida desde que nele escrevo até… sempre!

Menino… até sempre! No bibe, o corpo. Deixa, lava-se! E não te esqueças: chuta sempre!

Não chegou a chorar. Mas preparava-se.


Vitorino Nemésio

SEMÂNTICA ELECTRÓNICA

SEMÂNTICA ELECTRÓNICA, de Vitorino Nemésio, dito por Nelson Cabral

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenhador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
Coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores.
E sou ordenado,
Enfim ‑ o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
‑ Mas ‑ diz-me a ordenança ‑
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha.
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite conde…

A CAMINHO DO CORVO

A CAMINHO DO CORVO, de Vitorino Nemésio, dito por Vasco Pereira da Costa A minha vida está velha
Mas eu sou novo até aos dentes.
Bendito seja o deus do encontro,
O mar que nos criou
Na sede da verdade,
A moça que o Canal tocou com seus fantasmas
E se deu de repente a mim como uma mãe,
Pois fica-se sabendo
Que da espuma do mar sai gente e amor também.
Bendita a Milha, o espaço ardente,
E a mão cerrada
Contra a vida esmagada.
Abençoemos o impossível
E que o silêncio bem ouvido
Seja por mim no amor de alguém.

                                         Vitorino Nemésio - 25.07.1969

JÁ NÃO ESCREVEREI ROMANCES

Já não escreverei romances
Nem contos da fada e o rei.
Vão-se-me todas as chances
De grande escritor. Parei.
Mas na chispa do verso,
Com Marga a aquecer-me,
Já não serei disperso
Nem poderei perder-me.
Tudo nela é verbo e vida;
Xale, cílio, tosse, joelho,
Tudo respinga e acalma.
Passo, óculos, nada é velho:
Quase corpo, menos que alma.
Já não lavrarei novelas,
Ultrapassado de ficto:
A vida dá-me janelas
A toda a extensão do dicto.
Mas sem elas, mas sem elas
(As suas mãos) fico aflito.

Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga"

JÁ VELHO E DOENTE

«Seja a terra da Terceira
A minha coberta de alma»,
Disse eu na idade fagueira,
Em que tudo é força e calma.

Mas hoje, já velho e doente,
Em que as almas não se cobrem,
Hoje sim, peço seriamente
Que os sinos por mim lá dobrem.

Até já me aconselharam
Um quarto lá no Hospital,
Tanto caipora me acharam,
Escaveirado, mal, mal...

Ali visitas teria
Por obra de misericórdia,
Embora comida fria,
Alguma vez, que mixórdia!

Mas sempre era doce ao peito
Ir acabar os meus dias
Na Praia, de qualquer jeito,
Perto da casa das tias.

Tive o exemplo resignado
Que me deu a prima Alzira
Num lençolinho lavado
Com rendas limpas na vira.

Ali matámos saudades,
Ela alegre e penteadinha,
Mal pensando eu que as idades
Não perdoam. Hoje é a minha.

Também cheguei a pensar
No Asilo, talvez com um biombo.
Sou biqueiro. Mas jantar?
Todos ali, lombo a lombo.

Como outrora o Tintaleis,
Três-Quinze, Manuel de Deus
Eram duas vezes seis,
Lava-Pés, e Pão-por-Deus.

Mas já sei que nem no hotel!
(A família não consente).
Tenho que amargar o fel
Mortal como toda a g…

TENHO UMA SAUDADE TÃO BRABA

Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.

Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso
Morrer lá com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

Quando se diz «Seja feita»
Eu sentirei na garganta
A mão da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.

Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga"

PEDRA DE CANTO

Ainda terás alento e pedra de canto,
Mito de Pégaso, patada de sangue da mentira,
Para cantar em sílabas ásperas o canto,
De rima em -anto, o pranto,
O amor, o apego, o sossego, a rima interna
Das almas calmas, isto e aquilo, o canto
Do pranto em pedra aparelhada a corpo e escopro,
O estupro de outrora, a triste vida dela, o canto,
Buraco onde te metes, duplamente: com falo,
Falas, fá-la chorar e ganir, com falo o canto
No buraco de grilo onde anoiteces,
No buraco de falso eremita onde conheces
Teu nada, o dela, o buraco dela, o canto
De pedra, sim, canteiro por cantares e aparelhares
Com ela em rua e cama o falo fá-la cheia,
Canteiro porque o falo a julga flores, o canto
Áspero do canteiro de pedra e sémen que tu és
(No buraco do falo falaste),
Tu, falazão de amor, que a amas e conheces.
Amas a quem? Conheces quem? Pobre Hipocrene,
Apolo de pataco, Camões binocular, poeta de merda,

Embora isso em sangue dessa pobre alma em ferida:
A dela, a tua, cadela a tua pura e fiel no canto
De lama e amor como não há…

SONHO IMPERFEITO

Os dias longos tropeçam nos pés gastos,
Nas ruas assoladas, assombradas
Pelos corpos cansados das almas pobres,
Que aguardam pela noite para dormir e sonhar,
Que vivem de poemas rasgados das páginas,
Das letras desbotadas desligadas das palavras,
Dos olhos esquecidos na escuridão,
Das mãos sujas sem força,
Dos rostos com rugas sem tempo.
É assim quando acordas e paras de sonhar;
É assim que vives:
De um só tempo e da tua rua estreita;
De um só dia e da tua imagem imperfeita;
Nos teus olhos e só quando há luz.
É assim que vives.
Só até ti, num sonho imperfeito.                     Fernando Aires

ROMEIROS

Céu de chumbo! Escuta... Ave Maria, cheia de graça...
No seu cantar arrastado
A romaria lá passa...

Acordam ecos da serra,
Ó quanta fé nessa voz!
Numa toada dolente:
Mãe de Deus, rogai por nós! Ao escutá-la, comove-se
O coração. Que tristeza!
Anda naquelas palavras
Toda a dor da Natureza. Dor deste céu que sufoca,
Pelos atalhos de lava
Cascalho cortando os pés,
Picanços de silva brava. Dor desta terra em silêncio,
Quando se põe a tremer...
Falas ocultas da terra
O que estarão a dizer? Dor de quantos cantando
Choram na voz comovida,
Nas desgraças que sofreram
Os prantos da sua vida. E o rancho passa. Os romeiros
Dois a dois eles lá vêm...
Na procissão da tristeza
Por esses campos além. Vêm descalços. Na cabeça
Um lenço grande, enramado,
A saca e as botas ao ombro
E o chaile posto a um lado. Numa das mãos um bordão
E o terço para rezar,
Ao sol ardente ou à chuva
Não param de caminhar. E esta Ilha é tão comprida...
Sete dias de jornada!
Não há capela da Virgem
Que não seja visitada. Senhor Mestre de Romeiros,
Tão velhinho ind…

O PALÁCIO DA VENTURA

O PALÁCIO DA VENTURA, de Antero Quental, Youtube
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

            Antero de Quental, in "Sonetos"

À VIRGEM SANTÍSSIMA

À VIRGEM SANTÍSSIMA, de Antero Quental, Youtube Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia

N'um sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza...

Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!

                    Antero de Quental, in "Sonetos"

A UM POETA

A UM POETA, de Antero Quental, Youtube Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate. Antero de Quental, Sonetos

MORS - AMOR

MORS-AMOR, de Antero Quental, Youtube

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"

Antero de Quental, in "Sonetos"

A UMA MULHER

A UMA MULHER, de Antero de Quental, YOUTUBE Para tristezas, para dor nasceste.
Podia a sorte pôr-te o berço estreito
N'algum palácio e ao pé de régio leito,
Em vez d'este areal onde cresceste:

Podia abrir-te as flores — com que veste
As ricas e as felizes — n'esse peito:
Fazer-te... o que a Fortuna há sempre feito...
Terias sempre a sorte que tiveste!

Tinhas de ser assim... Teus olhos fitos,
Que não são d'este mundo e onde eu leio
Uns mistérios tão tristes e infinitos,

Tua voz rara e esse ar vago e esquecido,
Tudo me diz a mim, e assim o creio,
Que para isto só tinhas nascido!

                         Antero de Quental, in "Sonetos"

E POR VEZES

E POR VEZES, de David Mourão-Ferreira, dito por Teresa Coutinho E POR VEZES, de David Mourão-Ferreira, dito por Inês Melo E POR VEZES, de David Mourão-Ferreira, dito por Mafalda Jara E POR VEZES, de David Mourão-Ferreira, dito por Paulo Condessa E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
David Mourão-Ferreira

DAS VANTAGENS DE SER BOBO

DAS VANTAGENS DE SER BOBO, de Clarice Lispector, dito por Aracy Balabanian O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêm. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêm como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era…

A MAIOR FLOR DO MUNDO

A MAIOR FLOR DO MUNDO, de José Saramago, na voz do próprio A MAIOR FLOR DO MUNDO - PDF
As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples…
Quem me dera saber escrever essas histórias…

Se eu tivesse aquelas qualidades, poderia contar, com pormenores, uma linda história que um dia inventei……
seria a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas…

.....
Este era o conto que eu queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever histórias para crianças. Mas ao menos ficaram sabendo como a história seria, e poderão contá-la doutra maneira, com palavras mais simples do que as minhas, e talvez mais tarde venham a saber escrever histórias para crianças…

Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?...


E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a en…

A INCAPACIDADE DE SER VERDADEIRO

A Incapacidade de Ser Verdadeiro, de C. Drummond de Andrade, dito por A. Abujamara
Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

Carlos Drummond de Andrade

AS MINHAS ASAS

AS MINHAS ASAS, de Almeida Garrett, dito por Luís Gaspar Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu. Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar. Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu. Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas. E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hor…

SEGREDO

Segredo, de Miguel Torga, dito por Luís Gaspar
Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo. E o ovo tem lá dentro um passarinho Novo. Mas escusam de me atentar: Nem o tiro, nem o ensino. Quero ser um bom menino E guardar Este segredo comigo E ter depois um amigo Que faça o pino A voar...       Miguel Torga

REQUIEM PARA UM DEFUNTO VULGAR

REQUIEM PARA UM DEFUNTO VULGAR, de Daniel Filipe, Dito por Mário Viegas
Antonino morreu
Seu corpo, resignado,
É como um rio incolor, regressando à nascente
Num silêncio de espanto, e mistério revelado
Está ali estando ausente
Jaz, de corpo inteiro e fato preto
Ele, da cabeça aos pés,
Trivial e completo
Estátua de proa e moço de convés
Jaz, como se dormisse
Pelo menos é o que dizem as velhas carpideiras
Jaz, imóvel, sem gestos, sem acenos
Jaz, morto, de todas as maneiras
Jaz, morto de cansaço
De pobreza, de fome
Sobretudo de fome
Jaz morto, sem remédio
É apenas, sobre um papel azul, um nome
De ser mais qualquer coisa, a morte impede-o
Jaz, alheio a tudo à sua volta
À dor dos parentes e companheiros
Como um cavalo à solta
Ou no mar largo os rápidos veleiros
Jaz, inútil, frio, pesado
A colcha de crochet aconchega-o na cama
Nunca esteve tão quente e animado
Nunca foi tão menino de mama
Os filhos olham-no e fazem contas cuidadosas:
Padre, enterro, velório, certidão de óbito
E discutem, com manhas de raposas
Os parcos be…

QUERO

Quero, de Carlos Drumond de Andrade, dito por Paulo Autran Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo. Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo? Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a "amação"
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim. Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes. Se não me disseres urgente repetido
Eu te amo amo amo amo amo,
verdade ful…

ILHA DA SUJEIÇÃO

ILHA DA SUJEIÇÃO, de Daniel Filipe, dito por Mário Viegas era uma vez uma ilha era uma vez um menino um negro velho dedilha as cordas dum violino
era uma vez uma flor era uma vez um navio flor perfumada do rio e o rio ficava maior
era uma vez um portal era uma vez um segredo areias de Portugal como a distância faz medo
era uma vez um cometa lar oculto nome santo silêncio e voo de seta magia negra quebracho
era uma vez ilha e mar menino negro navio flor que perfumava o rio nome santo o culto lar
era uma vez minha avó o menino adormeceu está calmo está frio está só está inteiramente seu
                                                                               Daniel Filipe



CANTO E LAMENTAÇÃO DA CIDADE OCUPADA - 10

CANTO E LAMENTAÇÃO DA CIDADE OCUPADA - 10, de Daniel Filipe, dito por Mário Viegas

10.
Entanto, enquanto dói,
ouçamos folhetins (de rádio ou doutros):
cavalgam pelo écran fotogénicos potros
e a rapariga beija o seu cow-boy).
A solidão é chaga que rói, rói?
Não pode a vida suportar o mito?
(devora as unhas o espectador aflito,
não vá morrer de tiro ou tédio o herói).
E há quem diga que o diabo foi
o responsável desta história toda. (nem fomos convidados para a boda
leia-se FIM — da moça e do cow-boy).                                Daniel Filipe

CANTO DA LAMENTAÇÃO - 9

CANTO DA LAMENTAÇÃO, de Daniel Filipe, dito por Mário Viegas 9.
Mas há a noite. O estar sozinho
e no entanto acompanhado — servo de um deus estranho
cumprindo o ritual jamais completo
mas há o sono. A lúcida surpresa
de um mundo imaterial e necessário,
com praias onde o corpo se desprende.
mas há o medo.  Há sobretudo o medo.
Fel, rancor, desconhecido apelo,
suor noturno, rápido suicídio. Daniel Filipe

CANTO DA LAMENTAÇÃO NA CIDADE OCUPADA - 3

CANTO DA LAMENTAÇÃO NA CIDADE OCUPADA - 3, de Daniel Filipe, dito por Mário Vegas 3.
Não fora o grito a faca
de súbito rasgando
a fronteira possível
Não fora o rosto  o riso
a serena postura
de cadáver na praia
Não fora a flor a pétala
recortada em vermelho
o longínquo pregão
o retrato esquecido
o aroma da pólvora
a grade na janela
Não fora o cais a posse
do noturno segredo
a víbora  o polícia
 o tiro  o passaporte
a carta de Paris
a saudade da amante
Não fora o dente agudo
de nenhum crocodilo
Não fora o mar tão perto
Não fora haver traição               Daniel Filipe

PORT-WINE

PORT-WINE, de Joaquim Namorado, dito por Mário Viegas O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars. O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças. Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris. As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos. Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a …